Dia 24 de tarde eu recebi meu presente de natal, presente que eu mesmo me dei. As três HQ’s do Daniel Sousa vendidas num combo pela loja Cavernna.

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O tom — eu não gosto desse termo, mas achei que atmosfera era tão ruim quanto — de todas as história é autoral e intimista. A primeira que eu li, O bar do pântano (e outras desgraças), é uma história sobrenatural sobre a incapacidade de aceitar a morte sob o aspecto do morto. O inferno, o tal bar, é recheado de figuras que lembram os motoqueiros da gangue de Full Throttle, naquele estilo bastante sujo — é assim que se define o traço do quadrinista na própria HQ — que nos remete a esse estilo largado que teria/poderia ter sido feito em poucos minutos, contudo, o olhar atento vai captar as nuances do traço do Daniel Sousa, oscilando bastante entre a primeira página e a última, dando exatamente a ideia de que o protagonista, ainda que perdido, começa a entender o mundo que se desdobra na sua frente. O pós vida aqui é uma metáfora da vida (?) mostrando que não estamos certo vivendo de tal jeito — sendo um cidadão de bem — mas ao mesmo tempo sem nos dar um modo de vida que seja seguro.

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Se eu entendi certo, Entrespaço e Tachyon (a melhor das 3 revistas, pra mim) são uma mesma história que se desenrola a partir do momento em que o astronauta resolve abdicar da vida na Terra para se tornar um errante pelo universo. A primeira, Entrespaço, servindo de prólogo para Tachyon, mostrando como o astronauta se formou e resolveu largar tudo — ainda que ele cumpra a missão “de merda” de resgatar o robô perdido— para viver isolado no universo. Sozinho.

Sem dúvida, acho, é um fluxo de consciência que tem como ponto central a negação da sociedade atual (seja qual for ela, humanos tendem a não se encaixar naturalmente em hierarquias e normas, por isso tantas sansões são aplicadas a quem as fere) e, em último caso, um réquiem autodestrutivo e um grande foda-se pra tudo.

Se Entrespaço te leva pela mão para um final catártico, mandando a Terra tomar no cu, Tachyon te quebra no meio ao mostrar que esse cu é o seu. Não que não fosse esperado, dado o que eu tinha lido do autor nas duas primeiras histórias e no Twitter (que eu recomendo), mas o modo como a realidade se colocou na minha frente quando eu li me fez crer que não existe sentido real a ser buscado fora de nós mesmos.

Se uma jornada “nunca inicia” de fato, como vamos saber como ela chegou ao fim?

Não sei, e é exatamente isso que é colocado nas páginas rabiscadas pelo Daniel Sousa. Não tem motivação externa, não tem catarse, não tem fim, não tem inicio, não tem nada. Só tem algo, que ninguém explica e que ninguém sabe o que é. A vida é isso, ora. Um algo, uma coisa. Zero explicação e muito suor. E Tachyon tem isso, e mais, mas principalmente isso. Não sei se a ideia era soar como se o Astronauta do Maurício de Sousa tivesse encontrado Nietzsche ou Bukwowski, ou mesmo que estivesse só tendo uma bad trip por causa de alguma substância ilícita; ainda assim, a sensação final que me passa é que começamos com um questionando pueril da sociedade, passamos pela catarse do abandonado dessa e, finalmente, chegamos no sombrio depois de tudo onde a pessoa se encontra consigo mesma e faz um apanhado do que (não) viveu, em um quase monólogo sobre o que deu errado e como deu errado. Ou não, posso estar errado, completamente errado e lendo a história de acordo com o que eu espero da vida e da minha negação da realidade atual. Não que isso faça diferença mesmo. Nada faz. E foi isso que eu aprendi aqui.

Recomendo as 3 histórias, nem que seja pra você ficar pensando depois de ler no que a vida vai te trazer se você mandar todo mundo se foder e ir viver como um eremita espacial.