Não sei se quem ler esse texto, seja em 2020 ou não, lê o Anderson França. Mas se não faz isso, faça agora. Se puder, ajude o projeto dele - Coluna de Terça (CT) - porque vale muito a pena. Um projeto autoral que resgata a comunidade negra e pobre e traz pra academia (?) um pouco da realidade das periferias do Brasil. O cara é um ótimo cronista e tem algo que eu prezo muito: dá nome aos bois. E isso custa caro, tanto que ele mora em Portugal hoje em dia e já perdeu uma boa grana porque não fala em metáforas, como os grandes ensaístas do país. Esse texto é muito mais pesado do que a maioria do que ele posta, mas, ao mesmo tempo, muito mais válido pro momento que passamos - que eu passo.


Olha. Eu já ia dormir, e são 23 horas aqui em Lisboa, mas eu resolvi sentar no chão do quarto e escrever uma última coisa.

Aqui é muito quieto. Ninguém solta fogos em Lisboa, ninguém toca um pagode. Todo mundo em casa, na rua, vazio. Tá frio, e a calçada tá molhada, choveu muito. Se sair, paga multa e até vai preso, se a polícia te pegar depois da meia noite na rua.

Eu não sei como tá aí. Lembro dos outros anos que tive. Era churrasco à meia noite. Macarronese. Uva passa saindo pelo cu. Muita gente falando, gritando, umas intriga de cunhada, todo mundo olhando pro tênis do outro, pra camisa. Tinha que ser roupa nova. A gente botava uma bermuda, camisa, tênis novo.

Quando criança, e até a adolescência, passei ano novo na igreja. Os fogos estourando, e a gente DENTRO da igreja, meia noite, ORANDO, a oração do ano novo. Crente raiz, caralho. Não essa porra de Malafaia. Nós era crentão. Não jogava video game, não batia punheta, não comia Cosme e Damião. Era o Talibã.

Se vocês acha que com esses crente de hoje piorou, é porque os que catequizaram a gente não chegou no poder. A gente era o filé mignon do inferno.

Não sei como você tá. Se hoje, vão ter as lembranças das festas passadas, se vai ser algo mais modesto, só tua família. Ou se você tá sozinho. Num quarto, numa casa, ou na portaria do prédio. Ou no ônibus, dirigindo. Ou no metrô.

Ou no hospital. Médico, ou o paciente. Ou na rua. Deitado num papelão, ouvindo rádio. Ouvindo Rádio Tupi. Não sei onde você tá. Pode estar em casa, com alguém do teu lado, e o clima há um segundo de explodir.

Quero dizer uma coisa. Se a gente chegou até aqui, a gente venceu. Quase 200 mil brasileiros não chegaram. E não chegaram porque Bolsonaro fez tudo que podia para que elas morressem. Mas a culpa não é só dele. Em Trancoso, na Mureta da Urca, no Leblon, em Copacabana, No posto 9 de Ipanema, Mangaratiba, Búzios, em Noronha, Jurerê Internacional, em todos esses lugares - e na vila do Carlinhos Maia - há pessoas empenhadas no genocídio.

Léo Santana, cantor, inclusive considerado uma das grandes personalidades negras de 2020, lotou uns shows essa semana e tá ameaçando perfis no Instagram que estão denunciando a produção dele. Ele tem dinheiro. Felipe Neto tem dinheiro. Pode ligar pra um escritório do Twitter, e mandar fechar a página de quem eles quiserem.

Enfim, a hipocrisia.

Pago preço alto porque cito nomes. Maiara e Maraísa, Doria, Bolsonaro, a PM inteira, Pugliesi, Maitê, Carla Zambelli, eu consegui muitas inimizades em 2020. Puta que pariu. Muitas.

O que você precisa saber é isso. Se chegou, chegou fudido, mas chegou. Eu tive leitores que se suicidaram. Me escreviam numa madrugada, pela manhã, eu recebia mensagem de um parente dizendo que tinham levado o corpo pro IML.

Você precisa entender: A CULPA NÃO É SUA. Isso que aconteceu com você, aconteceu com milhões de pessoas. Pessoas divorciaram, pessoas saíram de casa, pessoas perderam emprego, perderam a bolsa de estudos, perderam a vontade de seguir. Muitos entraram no ciclo da ansiedade. Um fator não programado. Muitas ganharam peso que não queriam ganhar, muitas pioraram seu estado de saúde. Mental, inclusive.

Eu piorei muito. Por pouco, também cantava pra subir.

Mas a gente precisa lembrar hoje do que conseguimos fazer. Aquela conta que pagamos. Apesar de tantas outras em aberto. Aquele aluguel pago. Aquela pessoa que conhecemos. As inúmeras vezes que tivemos vontade que quebrar a porra toda, mas não fizemos - porque assumimos a responsabilidade com a nossa vida, e muitas vezes, com a vida do outro que mora com a gente. Uma criança, um companheiro, companheira.

Olha pra alguma coisa que você fez, e que foi uma conquista pequena. Faz isso, ou tu surta. A gente tem que procurar hoje algo que possamos dizer: caralho, pelo menos isso eu fiz. E fez. Se tá lendo, chegou vivo. E se chegou vivo, é porque fez.

Conheço pessoas que estão se culpando. Se acham improdutivas, não se concentram mais, mudaram demais, desde janeiro de 2020, e pensam que a culpa é delas, não é.

Você não tem responsabilidade com o que fizeram com você. Você tem responsabilidade com o que você vai fazer, com o que fizeram com você.

Daqui umas horas, vamos todos recomeçar tudo. Não tenho boas notícias. Ninguém tem. Talvez 2020 tenha nos preparado pra algo pior. Pega na mão de alguém, na virada, respira. Abraça, celebra, mas fique atento.

Nós estamos no meio da tempestade. No meio da noite. E a noite veio com furor.

Mas lembre-se: a noite acaba. Uma hora ela acaba. Não tem jeito. A noite não dura mais que uma noite. O tempo dela. Suporte a noite. Apenas suporte a noite.

Aos que estão cansados, solitários, e fracassaram em tudo, pra vocês eu escrevi isso aqui. Estou terminando o ano cansado, cheio de pesos na alma, com o corpo doente, pensava que estaria muito melhor.

Mas eu tô aqui, zero glamour, no chão do quarto, torcendo que você leia, e sinta algum alento.

Fiquem firmes. Estejam tranquilos.


A fonte: https://www.facebook.com/AndersonFrancaDinho/posts/1183149025420847