Opinião impopular: o banimento do Trump é um ato completamente irracional e fere o direito das pessoas de falar e defender ideias.

A esquerda e os setores progressistas comemoram o banimento porque ele configura “discurso de ódio” ou, nas palavras do congresso norte-americano, “incitação à insurreição” no movimento da invasão ao Capitólio.

Claro que o Trump e seus seguidores, nazistas/fascistas/supremacistas, cometem crimes todos os dias e devem ser punidos (dura lex, sed lex) legalmente responsabilizados pelas mortes que ocorreram em função desse discurso. Acho que isso é ponto comum entre qualquer pessoa que seja capaz de viver em sociedade.

A questão tangente (ou nem tanto) ao banimento das redes sociais dos perfis do POTUS é que isso escancara que temos poucas empresas, capitalistas, determinando como o fluxo de informações deve ser. Elas controlam, hoje, todo o fluxo de informação relevante do planeta. Twitter, Facebook (Instagram e Whatsapp inclusos), Amazon (AWS) e Google (Youtube) determinam como a rede deve ser, como a informação deve ser e como as pessoas devem se comportar. E tudo isso de acordo com os ditames do capital. Quem comanda a nossa informação e a nossa capacidade de atingir objetivos comunicativos são empresas que correm atrás do que o capitalismo determina (lucro).

Não defendo nenhum trumpista e muito menos o seus discurso, contudo, o banimento dele das redes sociais é uma clara demonstração de que não temos mais liberdade na internet.

Hoje é o Trump sendo considerado “propagador de discurso de ódio”, mas amanhã pode muito bem ser um deputado defensor dos direitos da minoria ou um partido divulgados das ideias comunistas (principalmente as que pregam a ruptura pelo meio revolucionário). Qualquer discurso que desagrade o capital pode ser enquadrado, em algum momento, em algum termo de serviço das redes e ser, assim, podado e apagado.

Pau que abate em Chico bate em Francisco.


Quem determina o que são “interesses maiores”? Quem determina que algo interfere nos direitos comunitários?

Esse tipo de ação é muito subjetiva. Hoje foi o Trump com um claro discurso aberrativo em relação à democracia dos EUA; amanhã pode ser um parlamentar de esquerda com um discurso de igualdade de gênero. Esses conceitos de “interesses” e “coletividade” são, usando Bauman, líquidos, ou seja, eles dependem de uma associação livre dentre pessoas/entidades e de uma superestrutura social que dá conta de mante-los em funcionamento e, sendo assim, nós devemos nos perguntar quem mantém essas superestrutura e com que motivação a mantém.

Atualmente é bem claro que esses direitos/interesses são mantidos de acordo com o capitalismo – fetiche pela mercadoria, mercado de consumo, lucro – e que esse age de acordo com o seu interesse.

Qualquer pessoa, dentro do meu entendimento atual, que pregue a autodeterminação e eleições sem a interferência burguesa é, hoje, um elemento de “insurreição” dentro do capitalismo e, por isso mesmo, passível de censura.


Tomando como base do texto publicado pelo Rodrigo Ghedin no seu site, Manual do Usuário, sobre a problemática de banir Trump das redes sociais.

Eu concordo que o modelo das redes sociais, principalmente do Facebook/WhatsApp, é fadado ao fracasso social – não capital, no capital eles vão muito bem.

A questão central pra mim é exatamente a que você toca mais adiante no texto: pode uma empresa nos EUA deter a chave pra internet? O fluxo de informações e conteúdos, hoje, está preso em 4 empresas que controlam quase toda a presença online de todos nós. Mais do que a comercialização de dados pessoais, me assusta como eles tem essa capacidade de convergir toda a nossa presença online e assim ditar o que podemos (ou não) fazer.

Como eu disse, hoje são os apoiadores do trumpismo que foram banidos ou estão sendo caçados pelas redes; amanhã pode muito bem ser um grupo LGBTQI+ ou mesmo uma organização como o MST. Qualquer pode ser enquadrada em “quebra” dos termos deles.


Pra mim, comemorar o banimento do Trump pode significar que, mais tarde, qualquer pessoa que não pense dentro da caixa capitalista-religiosa possa ser banida do mesmo modo.

O PCO tá certo.

Bater palma pro banimento da redes sociais do Trump é bater palma pro, mais tarde, inevitável banimento das contas de esquerda, talvez do próprio PCO.