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Cidades brasileiras não seguem uma lógica racional sequer dentro do capitalismo. Ontem, em uma discussão que nasce sobre os centros comerciais, típicos das regiões periféricas do Brasil, eu ganhei de graça uma aula do gabriel fernandes sobre urbanismo e formação de cidades, plano diretor e mais.

Achei interessante guardar aqui, porque vai que o Twitter um dia apague tudo.


Na maioria dos casos o que as pessoas chamam de “falta de planejamento” ou “crescimento desordenado” é um mito — mesmo em questões menos estruturais.

O caso de São Paulo é um dos mais célebres: a história da cidade ao longo do século 20 é repleta de ações e iniciativas de planejamento, sejam elas normativas ou por via de intervenções e projetos urbanos inclusive em escala metropolitana.

Além disso, desde pelo menos 2001 cidades com mais de 20 mil habitantes e em regiões metropolitanas são “obrigadas” a terem planos diretores. Claro que a resposta a isso é que a legislação “não é cumprida”, nesse caso, também é clássica uma formulação desse problema que enxerga uma aplicação seletiva e ordenada (pra não dizer mesmo planejada) das leis de planejamento e ordenamento. (Sobretudo para fins de especulação clássica da terra, mas não só).

Falando assim isso tudo parece meio conspiracionista, mas inúmeros trabalhos acadêmicos mostraram nas últimas três décadas como esse modelo se repete. E aí tem todas as especificidades de um país que inverte a lógica de mobilização do estado para construção das condições de reprodução e circulação da força de trabalho: investimentos concentrados nos vetores de mobilidade das elites, ou seja, planeja-se e investe-se nas áreas de sociabilidade e moradia das elites, rompendo até com a racionalidade capitalista mais previsível (que investiria em transporte e habitação, por exemplo, para viabilizar reprodução e circulação da mercadoria força de trabalho).

E aí tem uma questão importante: localizações são socialmente construídas, mas não são “aleatórias” — são condicionadas pela quantidade de trabalho socialmente necessário para sua constituição concentrado no seu entorno (renda da terra também envolve extração de mais-valia): todo o trabalho de escavar terra, mexer nela, construir viaduto, fazer tubulação, etc, é trabalho humano sendo despendido e concentrado.

Flávio Villaça é um autor que mostrou, faz uns trinta anos, como no Brasil as metrópoles invertem essa lógica capitalista tradicional colocando a ideologia da classe dominante como agente de produção do espaço até mais do que os interesses” racionais” do capital.

Lembrando que “localização” é uma mercadoria como qualquer outra, apesar de suas especificidades. E esses investimentos públicos são literalmente dinheiro transferido dos pobres para os ricos. Isso pode parecer uma obviedade mas é uma violência que a gente naturaliza.

E apesar disso, como a terra urbana é limitada, o capital imobiliário opera para sempre criar novas fronteiras, centralidades e novos espaços de exclusividade. a saída dos ricos de uma dada região torna-a “degradada” não porque ela passa a ser ocupada por pobres, mas porque com os ricos vão embora junto os investimentos públicos — primeiro de tudo os de zeladoria urbana. e aí o Vilaça tem toda uma discussão de como se opera ideologicamente a noção de “cidade” como um espaço coletivo que, no entanto, sempre acompanha a cada momento os espaços de sociabilidade e moradia das elites.

“Cidade”, assim, passa a ser sinônimo de avenida paulista (ou de Faria Lima, ou de Berrini) como já foi de “praça da sé” ou até de “Brás” no passado.

E investir na “cidade” seria supostamente investir para “todos”