Esses grupos de direita-liberal estão se organizando desde 2004/2005, pelo menos. Think tanks recebendo dinheiro de empresas privadas para escrever artigos e realizarem encontros “libertários” estão na luta faz mais de uma década. O que ocorreu é que o Bolsonaro deu abertura pra agenda liberal que eles pregam. O autoritarismo, nessa visão, era algo colateral que eles conseguiriam controlar via Paulo Guedes e STF. Não deu. Bolsonaro não é fruto de um crescimento repentino de uma ideologia belicosa que se formou como contraponto à esquerda, Bolsonaro e todo o autoritarismo que varre o mundo (Trump, Boris Johnson, Erdogan e tantos outros) são reflexo do cansaço do modelo social-democrata dos anos 90/00, da acumulação de riqueza por pouco e, no Brasil, da campanha lavajatista-liberal encabeçada pela mídia que hoje se horroriza com o Bolsonaro (FSP, Globo, Estadão).

A esquerda sempre precisou ser violenta para conseguir avançar um milímetro na busca por direitos trabalhista. CLT veio na base de muitos anarcossindicalistas mortos em greves gerais por esse país. SUS (no lugar do INPS) só veio depois de muito pobre morrendo sem atendimento ou esperando na fila da Irmandades como a Santa Casa. O “status quo” não entrega nenhum naco de poder e dinheiro sem luta, por isso normalmente você verá trabalhadores tendo que entrar em confronto direto com a PM (braço armado de repressão do Estado) para consegue receber VT e VR em dia.

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E isso tem nome: pós-política.

Esse tipo de ação acaba fortalecendo pessoas que se alimentam das desigualdades sociais desse país (e de outros) se vendendo como soluções completas contra um mal simbólico. Dória é o grande exemplo disso: o gestor que vai “acabar” com os problemas deixados pelo PT. Esse discurso de senso comum é muito afetivo mas pouco efetivo. As pessoas vão todas concordar com você se você disser que “político só pensa nele mesmo” porque é mais cômodo do que pensar que existem alternativas ao atual sistema sociopolítico brasileiro. Contudo, se posicionar dessa forma é “extremo” porque atenta contra a estabilidade desigual que a nossa sociedade alcançou.

De qualquer modo, acho que você tem um ponto: as pessoas comuns não costumam abraçar causas que podem lhe trazer problemas (instabilidade) porque elas tem muito a perder com isso (empregos, renda, moradia, a própria vida) e preferem uma vida de dificuldades extremas mas que lhes traga um estabilidade mínima para se manterem, pelo menos, no mesmo extrato social.

Por outro lado, você confunde as causas e correlações políticas que nos trouxeram até o atual momento, criando uma falsa dicotomia entre o discurso da extrema-esquerda e da alt-right brasileira. Por mais que essa extrema-esquerda advogue em prol de uma revolução armada e que rompa com as estruturas sociais atuais, ela jamais advoga no sentido atacar direitos individuais como liberdade e direito à vida, algo que é comum na alt-right que, muitas vezes, reproduz discursos de estéticas nazistas, racistas e misóginas evocando um suposta “pureza” de pensamento clássico (esse é o ponto principal do Olavo de Carvalho, por exemplo) que seria retomado ao eliminarmos a esquerda e os valores individuais desses, substituindo-os por valores que eles julgam moralmente superiores (cristianismo, TFP etc.).

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Eu vejo que existe um paradoxo na ideologia libertária quando se prega o PNA para tudo porque, em questões como essa, qual é o limite da agressão? Você pode dizer que “é só se mudar” no caso do vizinho com pneus criando mosquito da dengue. Ou, no caso atual das máscaras, é só evitar contato direto com quem está sem. Em ambos os casos, contudo, reside um dilema humanitário.

Apesar disso, a sociedade (como corpo social) já criou uma solução pra esse dilema: Estado. Ele dita as regras mínimas de convivência social em tempos normais e extraordinários e tem o monopólio da força para aplicá-las porque, teoricamente, a segurança física e jurídica deve ser igualitária. A própria propriedade privada depende do Estado para existir. O Estado privado, mínimo ou inexistente que as várias vertentes do pensamento libertário/mincap/ancap criam trazem em si diversos dilemas sociais que só são resolvidos via Estado. E pra mim esse é o problema com todo o pensamento libertário: ele parte de um mundo com Estado para imaginar um mundo sem Estado mas se valendo das regras criadas por esse mesmo Estado.

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Um dos grandes erros que as pessoas cometem ao debater a ética libertária, é pensar que libertários são contra todo tipo de governança. Libertários são contra governança imposta, apenas.

Essa é uma afirmação completamente vazia de sentido ou significado. Toda a governança é imposta. Se você abre por votação, ela é uma imposição. Se você coloca por mérito (seja qual for a diretriz escolhida) ela é imposta. Qualquer tipo de governança, mesmo que seja um conselho (como defendem os anarquistas, de onde o libertários pegam boa parte de suas ideias) é imposta para algum grupo de pessoas. Essa ética escorregadia é o cerne da ideologia libertária e é, por si só, um paradoxo. Se você espera que ocorram “mini” estados auto-geridos, bem, isso foi feito alguns séculos atrás e se chamava feudalismo (daí o meme né, de chamar ancap e libertário de neo-feudalismo).

Na questão da propriedade, é risível ver alguém argumentar que o estado é que provém a defesa desta, tendo em vista que este se apropria da propriedade e do trabalho alheio para se sustentar de maneira ilegítima.

O Estado de direito é quem determina que eu não posso entrar na sua casa, te matar, estuprar a sua mulher e criar seus filhos como escravos. Em último caso, o Estado lhe garante a segurança mínima de ter uma propriedade e essa ser respeitada. A legitimidade do Estado se dá, exatamente, pelo corpo social, mas, novamente, entramos na ética escorregadia do libertário. Paradoxal, novamente.

“E pra mim esse é o problema com todo o pensamento abolicionista: ele parte de uma sociedade que cresceu com o uso de escravos para imaginar uma sociedade sem escravos, mas se valendo de toda a riqueza que foi adquirida através da mão de obra escrava.”

Concordo, e é por isso que temos que ter ainda mais medidas de compensação racial pelos povos escravizados pelas nossas elites nesse período. Cotas é só o começo.

Não passa de um grupo de burocratas que convenceu as pessoas de que eles, de alguma forma, possuem a legitimidade de regrar as vidas alheias.

Assim como um empresário é só uma pessoa que obteve lucro convencendo pessoas a comprar um produto, usualmente se valendo de uma herança para ficar rico/ter influência.

Leis devem existir, por isso o código de ética, mas indivíduos não devem ter o direito de impor suas vontades sobre outros indivíduos pacíficos. É isso que os libertários defendem.

Indivíduos não são ilhas e por isso mesmo a sociedade humana chegou ao consenso de que o Estado, grande ou não, é a melhor maneira de se gerir essa sociedade (com leis, diretrizes, poderes separados etc) e que a melhor maneira de se gerir o Estado é através de uma democracia representativa. Concordo que podemos melhorar tanto a democracia (transformando ela em algo mais horizontal e menos vertical) e melhorar o Estado (tornando-o menor babá de empresários e empresas e mais uma rede de sustentação social que permita que as pessoas tenham o mínimo para se desenvolver sem medo e passar fome ou morrer por falta de atendimento hospitalar), mas para isso se reforma o Estado e a democracia (e suas instituições).

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Uma revolta armada popular é contra as estruturas sociais que mantém a opressão e não contra indivíduos que fazem parte dessa estrutura, se beneficiando ou não. Você não cria uma revolta contra o se Zé da padaria, você cria uma revolta contra o sistema pelo qual o seu Zé da padaria contrata funcionários por 1 salário mínimo e os faz trabalhar por 16h por dia. Se o seu Zé entra no meio da briga pra defender o sistema ao qual ele se beneficia, ele assume os riscos inerentes de se opor à uma revolta armada.

Você fez um malabarismo enorme pra imputar uma correlação entre uma revolta armada e uma revolução popular de cunho comunista/socialista, mas na verdade uma revolução popular já está em curso no Brasil atualmente, uma vez que o Bolsonarismo visa romper com as estruturas sociais vigentes. Uma revolta popular foi o que nos levou aos anos de ditadura militar também - militar não dá golpe sem apoio massivo da sociedade civil.

A revolução chinesa não é um bom exemplo disso, ela é muito complexa para colocar nesses termos maniqueístas. Não existe consenso de que ocorreu um “limpa” no PCCh após a revolução maoísta e muito menos que a base popular do partido tenha sido quebrada em algum momento (até hoje existe esse debate). A revolução russa é mais “limpa” nesse aspecto, uma vez que com a morte de Lênin o stalinismo tomou conta das bases do partido e do governo e, com a cortina do esforço de guerra, acabou com a oposição interna e externa (Trotsky que o diga).

Como eu disse antes, o grande problema para uma revolução, qualquer que seja, é que ela pressupõe que as pessoas da base social estejam focadas em erodir o atual sistema; isso só ocorre quando as pessoas tem o mínimo de capacidade de entendimento sob o sistema em si e, principalmente, tempo para se organizarem. Hoje em dia o capitalismo “tardio” se defende muito bem disso colocando as pessoas, principalmente de países periféricos, sob constante medo (de passar fome, de morar na rua, de morrer sem assistência médica e por aí vai) através da informalidade e da destruição das redes de sustentação social, o que inviabiliza qualquer agrupamento de pessoas ao redor de uma causa que não seja a pura e simples sobrevivência.

Acredito que isso, uma hora, vai explodir e vai ser absurdamente violento com todos aqueles que se defenderem a ordem de opressão atual,. mas não creio que a revolução brasileira será algo nos moldes da russa ou chinesa, penso mais em uma revolução neopentecostal com um capitalismo religioso tomando conta do país inteiro. Mas isso é futurologia.