Depois do jogo de ontem, quando o Flamengo ganhou do Inter por 2 a 1 de vira, não me resta mais nada senão torcer pelo milagre na quinta-feira. Mas é um milagre. Só. O Inter não perdeu o campeonato naquele jogo de domingo contra o melhor elenco da América do Sul, perdemos contra o Sport, na zona do rebaixamento, em casa por 2x1.

A verdade é que times de fora de RJ e SP não tem grana e nem alcance pra disputar as 3 competições grandes do ano. Mas como a imprensa de todo o país pressiona os clubes a jogarem as três pra ganhar, se cria essa lambança maluca. Todo o ano é assim, Inter se classifica pra TLA e fica poupando no brasileirão. Como a TLA é difícil quase sempre, acaba caindo nas 4as ou 8as. Daí começa a jogar o brasileirão. Mas daí vem a Copa do Brasil, que é mais fácil, e fica a pressão pra jogar o mata-mata. As vezes tu pega um time bom pelo caminho e perde. E aí vem pressão da torcida porque o time não consegue jogar as 3 competições, a imprensa pede a cabeça do treinador porque ele não ganha faz 4 jogos e o elenco estoura porque tem 80J da temporada. No final, acaba um time de SP ou RJ ganhando o brasileirão e a Copa do Brasil e fazendo a final com um argentino.

Quando um time de fora de RJ/SP consegue alguma coisa é quase sempre no mata-mata e na base do sufoco.

Coudet disse isso muito bem, o Inter não tinha elenco pra disputar a TLA/CBR/BR ao mesmo tempo. Todo mundo batia nele por causa disso “absurdo”. No final do brasileiro, graças a uma arrancada do Inter, chegamos com chances reais mas sem zaga titular (Moledo, Saravia e Boschilia machucados) e com ataque descontado (galhardo sem jogar 90 min faz mais de 10 jogos) e com um meio campo “estourando” (dourado e Edenilson saíram contem mancando).

Se o Inter não tivesse disputado as ganha TLA e CBR não tinha rolado isso. Metade das contusões da temporada tinham sido evitadas e ondem a gente não tinha entrada com dois guris de 22 anos na zaga e o pagado R$1M pro Rodinei jogar.

Mas coloca isso no Sala de Redação, que faz a cabeça de dirigentes e torcedores do RS todos os anos dizendo que os times do RS tem como jogar 3 competições em pé de igualdade com Flamengo e Palmeiras.

Flamengo depois que BH e Gabigol voltaram quase não perdeu (só perdeu pro CAP).

Update

Correndo atrás das receitas e folhas dos clubes brasileiros, consegui reunir três imagens que resumem a discrepância do faturamento e das despesas dos clubes do Brasil. Grosso modo podemos distribuir os clubes em três grupos: Flamengo, times grandes, times médios-pequenos. A diferença do Flamengo, primeiro colocado em receitas e folha pro Palmeiras, segunda folha mais cara, é de R$8,5 milhões. Exatamente a folha salarial do Inter. Ou seja, existe um Internacional de distância entre o primeiro e o segundo clube mais rico do Brasil. Claro que isso impacta no esporte e nos títulos. Não por nada, Flamengo é bicampeão brasileiro e Palmeiras da Libertadores (ambos são, inclusive, os dois últimos campões continentais) e o Palmeiras ainda faz a final da Copa do Brasil 2020 com o Grêmio.

Olhando para as receitas projetadas para 2020 - e para as obtidas em 2019 - fica mais claro ainda que essa diferença tende a se alargar com tempo, afinal, mais títulos somam mais prêmios e mais torcida consumindo PPV e indo aos estádio (quando tudo voltar ao normal).

E isso não fica melhor quando olhamos pras receitas apenas da TV (PPV, aberta e fechada) e que compõe muito da renda dos clubes brasileiros. A diferença é abissal entre Flamengo e Inter (principalmente pelo estrangulamento que a Rede Globo está colocando nos clubes que assinaram com a Turner/EI).

Não se pode mais ignorar a realidade de que o futebol brasileiro caminha sim pra uma “espanholização” com a profissionalização da gestão do Flamengo. A culpa não é exatamente do Flamengo, claro. Existe uma questão histórica que justifica sua massiva torcida ao redor do país, a sua enorme força política dentro da rede Globo e a sua nação de torcedores. Mas, por outro lado, não se pode ignorar que esse poderio econômico do Flamengo nubla as questões centrais do debate esportivo e centraliza as decisões em apenas um clube - todos os clubes assinam e negociam depois que o Flamengo o faz.

O que nos resta, torcedores periféricos, é torcer para que o Flamengo volte a ser uma baderna como era nos anos 2000.