“É horrível, a gente não sabe o que pode acontecer”

“Minha mãe trabalha como cuidadora em um abrigo do Estado. Na semana passada, ela apresentou alguns sintomas e fomos ao posto. Foi feito o teste, deu positivo e, como os sintomas eram leves na época, ela foi encaminhada para casa. Compramos um oxímetro para monitorar a saturação de oxigênio e estava sempre muito baixa.

Aí, o quadro foi se agravando, a respiração foi ficando mais pesada. Voltamos ao posto de saúde, novamente, encaminharam-na para casa. Então, ela começou a passar muito mal mesmo, acionamos o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e trouxeram a mãe aqui para o PA da Cruzeiro, faz seis dias que ela está aqui. Ela está acomodada em uma cama, mas soube que tem muito paciente covid no chão ou em poltronas.

No boletim de terça-feira (23), me informaram que ela estava estável, mas que precisa de um leito de UTI porque desenvolveu pneumonia e isso a deixa mais frágil e dependente de uma estrutura mais aparelhada.

Desde o sábado passado (20), tentamos ligar para os hospitais atrás de um leito, mas está muito difícil, está tudo lotado. Tentamos leitos em cidades próximas a Porto Alegre, mas também não conseguimos. A mãe tem plano de saúde, mas a busca não está fácil. Temos que aguardar, e essa espera maltrata demais. Vai fechar uma semana que estamos nessa aflição.

É horrível, porque a minha mãe está nesta situação e a gente não sabe o que pode acontecer, não sabemos se ela vai ou não conseguir transferência, e a agente se expõe ao ficar aqui no aguardo de notícias sobre o estado de saúde dela. Até poucos dias atrás, quem vinha até aqui era minha irmã, mas ela também acabou pegando covid. Como ela não pode sair de casa, eu passei a me deslocar, mas tenho medo. Por isso, uso máscara e esse escudo de acrílico no rosto. Mesmo assim, fico com receio de levar o vírus para casa.

*Nos últimos dias, piorou a comunicação com o pessoal do PA. Desde quarta-feira, eu não consigo informações precisas sobre o estado de saúde da mãe. Aguardo umas três horas alguém aparecer e dar notícias, mas não rola… O máximo que consigo fazer é parar um enfermeiro na passada, mas sempre é uma promessa de que daqui a pouco darão informações. Mas o pessoal deve estar correndo muito lá dentro. Só na quinta-feira, por volta das 10h, chegaram umas cinco ambulâncias do Samu.”

* Diego Garcia, 36 anos, engenheiro de software, morador de Porto Alegre. Filho de Jane Cardoso, 55 anos. A reportagem conversou com ele na quarta-feira (24) e na sexta-feira (26).

“Eu choro, mas tenho que me manter forte”

“Cheguei por volta das 7h30min. Faz mais de três horas que eu estou esperando para falar com a médica do (Pronto-Atendimento) Bom Jesus para me atualizar sobre como está o quadro de saúde da minha mãe e sobre a transferência dela para um leito de hospital. Na terça-feira (23), às 4h eu já estava na fila para saber dela e, em uma hora, consegui as informações de que precisava.

No turno da tarde, os enfermeiros até fizeram uma chamada de vídeo entre a mãe e eu. Deu para ver no rosto, na expressão dela a melhora em relação a como chegamos no posto. Mas, hoje (quarta-feira), está essa demora e não entendo o motivo, já que foi tão rápido da última vez.

A mãe chegou aqui mal na segunda-feira (22). Desde a semana passada, ela estava com muitas dores no corpo e febre. Na segunda-feira de manhã, a situação ficou grave e delicada, porque ela passou a apresentar dificuldades para respirar. Me desesperei quando vi que a mãe começou a ficar ofegante. Chegamos no PA às 17h e o atendimento dela só aconteceu depois das 21h. E isso porque eu fui lá e chamei por ajuda e insisti. Caso contrário, poderia ter levado mais tempo. Ela passou pela triagem, foi examinada, fez o teste, positivou e já ficou lá dentro. Agora está aguardando transferência para um leito de UTI desde segunda. Venho aqui todos os dias para saber dela.

A última informação que tenho é de que ela está estável e que a respiração foi controlada. Mas a mãe precisa ficar no oxigênio, ela precisa ser internada, mas os hospitais estão todos cheios. E essa espera nos desestabiliza muito, ao mesmo tempo em que exige sobriedade. A situação é desesperadora. Eu choro, mas tenho que me manter forte. Porque, se eu passar para minha mãe que eu estou sofrendo, ela pode ficar mais debilitada ainda. Aqui, eu só tenho a ela e ela a mim. O meu outro irmão mora em Recife, nossa cidade natal.”

A reportagem contatou o PA da Bom Jesus e foi informada de que, após quatro dias, na manhã desta sexta-feira, dona Nádia havia sido transferida para um leito de hospital.

Cléber Junior, 26 anos, garçom, morador de Porto Alegre. Filho de Nádia José, 55 anos. A reportagem conversou com Cléber na quarta-feira (24).