A principal caraterística de toda a língua falada é a sua discrepância em relação à língua escrita. Quanto tratamos da Norma Culpa da Língua Portuguesa (NCLP) falamos de um conjunto de regras estabelecidas ao longo dos anos de acordo com os seus falantes mais prestigiados. Essas normas, além de não darem conta de um recorte temporal preciso, uma vez que precisam de anos de sedimentação linguística geral para serem incorporados ao léxico culto, acabam abarcando apenas uma variação, por vezes incomum, da língua que é falada de fato nas ruas.

O que trás consigo a comparação entre o que se espera ouvir quando se estuda uma língua sob o ponto de vista de uma estrangeiro - como segunda língua - e o que de fato se ouve nas conversas nas esquinas do país.

O português brasileiro guarda grande semelhança com o português europeu em sua base, mas, trás consigo também uma série de inovações linguísticas típicas das regiões de colonização oriundas do atrito com povos autóctones (como as línguas do tronco Tupi e Inca) ou colonizados (como os povos fronteiriços com o Castelhano e o Espanhol).

Esses tupinismos, amerindinismos, africanismos e neologismos criaram uma variação regional bastante rica dentro do Brasil, sedimentando assim 16 dialetos estudados oficialmente dentro do país (ainda existe dialetos internos de cada região, tais como o hunsriqueano rio-grandense ou hunsrik que é falado dentro das colônias alemãs do Rio Grande do Sul ou Talian, falado nas regiões de colonização italiana da serra gaúcha).

As características mais marcantes do PB são:

  • Redução de vogais
  • Palatalização de /di/ e /ti/
  • Epêntese em encontros consonantais
  • Supressão do R e vocalização do L

Assim, esse texto trás consigo um apanhado em resumo das principais características de dois desses dialetos (Caipira e Nordestino) com especial atenção à fonética de ambos.

Dialeto caipira

O dialeto caipira é um dialeto da língua portuguesa falado no interior do estado de São Paulo, leste e sul do Mato Grosso do Sul, sul de Minas Gerais, sul de Goiás e norte do Paraná e zonas rurais do sul do Rio de Janeiro, no Brasil. Sua delimitação e caracterização datam de 1920, com a obra de Amadeu Amaral, “O Dialeto Caipira”.

Influências

A língua tupi, que era a língua habitual dos bandeirantes que ocuparam as regiões onde se fala atualmente o dialeto caipira, não apresentava alguns sons habitais da língua portuguesa, como os representados pelas letras /f/, /l/ e /r/ (de “rato”, por exemplo). Isso influenciou o atual dialeto caipira brasileiro. Por exemplo: o dialeto caipira se caracteriza pelo /r/ retroflexo (como em “porta”, “carta”) e pela substituição do dígrafo “lh” por “i”, como em “palha”, “milho”, que se leem “paia”, “mio”. Nos dois casos[carece de fontes?], ocorreu uma adaptação da fonética portuguesa à fonologia tupi.

Outro ponto em comum entre a língua tupi e o dialeto caipira é ausência de diferenciação entre singular e plural: abá, em tupi, pode significar tanto “homem” quanto “homens” e o dialeto caipira usa tanto “a casa” quanto “as casa”.

Características

Fonéticas

Desde a obra de Amaral, a fonética caipira é marcada por cinco principais traços distintivos:

  1. O “R” caipira: O fonema /r/, em fim de sílaba ou em posição intervocálica, assume as características formas aproximante alveolar [ɹ], retroflexo [ɻ].
  2. A rotacização do “L”: a permutação, em fim de sílaba, da aproximante lateral [l] pelo fonema /r/ (mil > mir, enxoval > enxovar, claro > craro, etc.). Esse traço não é exclusivo do dialeto caipira, mas se faz presente de forma gradual ao longo de todo o país, sendo menos comum na linguagem culta. Trata-se de um fenômeno que já vinha ocorrendo na passagem do latim para o português (ex: clavu > cravo).
  3. A iotização do “LH”: [ʎ] (/falhou/ [faˈjo]; /mulher/ [muˈjɛ]; /alho/ [ˈaju]; /velho/ [vɛˈju]; /olhei/ [oˈjej], etc.). Da mesma forma que a rotacização do L, esse traço existe ao longo do país todo, sendo mais uma marca social do que regional.
  4. A apócope da consoante /r/ na terminação dos verbos no infinitivo: (/brincar/ [bɾĩˈka]; /olhar/ [oˈja]; /comer/ [koˈme]; /chorar/: [ʃoˈɾa]; etc.).
  5. A transformação de proparoxítonas em paroxítonas: A apócope ou síncope em palavras proparoxítonas e a aférese em muitas palavras.

Morfossintáticas

Algumas características morfossintáticas difundidas por todo o falar brasileiro são, popularmente, vistas como características do dialeto caipira, como:

  • a concordância de número marcada apenas no artigo (/as mulheres/ [az muˈjɛ], /os homens/ [u ˈzomi], /as coisas/ [as ˈkojzɐ], /os primos/ [us ˈpɾimu] etc.)
  • a nasalização do /d/ na terminação do gerúndio (nas outras terminações em ←ndo> não sofrem esse fenômeno): (/falando/ [faˈlɐ̃nu]; /quando/ [ˈkwɐ̃du]; /dormindo/ [duɹˈmĩnu]; /lindo/ [ˈlĩdu]; /correndo/ [koˈhẽnu]; /segundo/ [siˈɡũdu]; /pondo/ [ˈpõnu]; /mundo/ [ˈmũdu])

Variações

O dialeto caipira pode ser dividido em cinco subdialetos:

  • O primeiro, falado na região sul do estado de São Paulo (regiões do Vale do Ribeira, Sorocaba, Itapetininga e Itapeva) e Norte do estado do Paraná, caracteriza-se pela marcação do “e” gráfico sempre pronunciado como fônico. Assim, palavras como “quente” e “dente” possuem o “e” átono pronunciado como /e/ e não como /i/, comum no português padrão do Brasil. Essa é também uma característica do português falado na região de Santa Catarina, Paraná e no Rio Grande do Sul.
  • O segundo subdialeto é da região do Médio Tietê (Campinas, Piracicaba, Capivari, Porto Feliz, Itu, Santa Bárbara d’Oeste, Americana, Limeira, Rio Claro, São Carlos, Araraquara e Jaú). Caracteriza-se pelos erres retroflexos inclusive em início de sílaba (como em caro, parada) e em dígrafos (frente, crente). Caracteriza-se também pela não-palatalização dos grupos “di” e “ti” fônicos e frequente iotização do LH.
  • O terceiro subdialeto compreende as regiões norte, nordeste e noroeste (Ribeirão Preto, Franca, São José do Rio Preto) e oeste (Araçatuba, Presidente Prudente, Bauru, Marília, Lins) do estado de São Paulo, região sudoeste de Minas Gerais (Poços de Caldas, São Sebastião do Paraíso, Cássia (Minas Gerais), Passos (Minas Gerais), Guaxupé), além de parte do estado do Paraná e de Mato Grosso do Sul. Caracteriza-se pelos erres retroflexos só em corda vocálica (final de sílabas), tais como em “porta”, “certo”, “aberto” e palatização dos grupos “di” e “ti” fônicos. Nas cidades mineiras o ritmo típico do dialeto mineiro está presente.
  • Um quarto subdialeto compreende à Mesorregião do Vale do Paraíba Paulista (Taubaté, Guaratinguetá) e Litoral Norte (São Paulo). Caracterizando-se pelos erres retroflexos só em corda vocálica (final de sílabas), tais como em “porta”, “certo”, “aberto” e com ausência de palatização dos grupos “di” e “ti” fônicos.
  • O quinto grupo corresponde ao Triângulo Mineiro e a maior parte do estado de Goiás. Compreende um subfalar com pronúncia tais como o grupo três e com ritmo típico do dialeto mineiro, com elevação do tom nas sílabas tônicas, e erres retroflexos só em coda vocálica (final de sílabas), tais como em “porta”, “certo”, “aberto” além da palatização dos grupos “di” e “ti” fônicos. O Sul de Minas Gerais e parte da Região Sul do estado do Rio de Janeiro possuem esta mesma variação de sotaque caipira.

Dialeto nordestino

O dialeto nordestino, também chamado simplesmente de “sotaque nordestino” (ouvir), é a variante da língua portuguesa mais usada nos estados do Nordeste brasileiro, sendo o dialeto com maior número de falantes dessa região, com mais de 53 milhões, sofrendo variações. Segundo a classificação proposta por Antenor Nascentes, esses dialetos, juntamente com os dialetos da costa norte, o dialeto recifense e o dialeto nortista, constituem o chamado português brasileiro setentrional, em comparação com as variantes do português faladas nos demais estados brasileiros. O dialeto nordestino tem raiz no Recife em Pernambuco.

Variantes

As principais variantes dialetais (ou sub-dialetos) em que se subdivide o dialeto nordestino são:

  • Subdialeto do Interior Nordestino: É a forma típica do dialeto nordestino, falada propriamente no interior da maioria do estados da região, caracterizada por não apresentar palatalização nas consoantes /d/ e /t/ antes da vogal /i/ e da semivogal /j/ (mesmo em sílabas finais “de” e “te”) e por palatalizar fricativas antes de /d/ (/z/ vira /ʒ/) e /t/ (/s/ vira /ʃ/), e também a mais difundida pelos meios de comunicação quando se trata do Nordeste. Falado nas regiões Agreste e Sertão, possui expressões bem típicas em cada estado. Ocorre na maioria dos estados nordestinos, do Rio Grande do Norte até Sergipe, nas mesorregiões do Nordeste Baiano e do Centro-Norte Baiano (exceto Feira de Santana e entorno, que falam o dialeto baiano) além das microrregiões de Juazeiro e Paulo Afonso na Bahia, e na porção Sul do Ceará (na região da Serra do Pereiro e nas mesorregiões Sul e Centro-Sul, as duas últimas popularmente conhecidas como Cariri).
  • Subdialeto da Zona da Mata: Ocorre, como o nome mesmo sugere, na região da Zona da Mata, em estados que possuem essa região. Muito parecido com o dialeto interiorano, porém sofre influências dos dialetos de outras regiões do Brasil, e até mesmo de outras variantes dialetais nordestinas. É conhecido pela maneira de falar “mais rápida” que a do interior, além de expressões não existentes no dialeto interiorano. Este sub-dialeto é característico das capitais litorâneas entre Natal e Aracaju (com exceção somente de Recife, sua região metropolitana e a zona da mata pernambucana, que falam o dialeto recifense).
  • Subdialeto do Meio-Norte: Fala já bastante influenciada pelos dialetos nortista e costa norte, havendo um meio-termo entre a palatalização de fricativas, que pode ser mais fraca ou mais intensa, dependendo da proximidade dos estados que falam essa variante com outras regiões, podendo até não haver nenhuma palatalização de fricativas. Falado nas regiões Sudeste e Sudoeste do estado do Piauí, assim como nas microrregiões Alto Mearim e Grajaú, Chapadas do Alto Itapecuru e Chapadas das Mangabeiras e Gerais de Balsas, todas no estado do Maranhão, além de alcançar também a região do Jalapão, no estado de Tocantins.

Vale ressaltar que os dialetos da costa norte, recifense, baiano, bem como o dialeto da serra amazônica (falado na parte sul-maranhense, excetuando-se a região das Chapadas das Mangabeiras), não são considerados como parte do dialeto nordestino,[4] visto que são classificados como dialetos à parte. Embora popularmente sejam usados como sinônimos as expressões “dialeto nordestino” e “sotaque nordestino”, por justamente ser o dialeto mais falado da região, essa definição é um tanto errônea, por não contemplar os demais dialetos falados na mesma, e deve ser evitada o máximo possível, sobretudo, em estudos e artigos científicos sobre o mesmo. Trata-se, na verdade, de um dialeto central na Região Nordeste do Brasil, e os demais dialetos citados anteriormente podem ser considerados “dialetos nordestinos periféricos”, que compartilham características semelhantes a este dialeto e parecem ter origem do mesmo, onde as diferenças entre este e os dialetos periféricos se notam porque nestes há introdução de fonemas alofones, diferença na eloquência e contato cultural com outros dialetos.

Fonética

Consoantes

  • Pronúncia e palatalização de /s/ final e entre consonantes: Como na maioria dos dialetos, a grafia e a pronúncia divergem bastante. No caso desse dialeto isso pode ser notado na pronúncia do /s/ e do /z/, que em palavras antes de certas consoantes é pronunciado como /ʃ/ e /ʒ/, mas em outras como é realmente escrita. De modo geral, a palatalização de fricativas, nesses subdialetos sempre ocorre antes de consoantes alvéolo-dentais (/t/ e /d/, sendo /ʃ/ antes de /t/ e /ʒ/ antes de /d/), mas isso não é uma regra geral, pois em certas regiões dos estados do Maranhão, Piauí e Bahia pode não haver essa palatalização. Essa característica intermediária entre o /s/-/z/ e /ʃ/-/ʒ/ indica um arcaísmo transitório entre o português clássico original de séculos anteriores melhor preservado e o português do século XIX já com maior influência do “chiado” da Galiza que muito influenciou o idioma do norte de Portugal, que sempre enviou mais emigrantes por sua demografia e natalidade maior ao longo do hinterland e vale do Douro. Para se ter uma ideia, há vocábulos na Galiza em que fonemas tais como /x/ (som de “r” aspirado) são substituídos por /ʃ/ literalmente, e em partes do norte de Portugal o fonema /s/ mesmo antecedendo vogais assume o som de /ʃ/ (por exemplo na palavra “seis” que vira [ʃejʃ]), coisa que nem mesmo no dialeto recifense (o único no Nordeste onde os fonemas /ʃ/ e /ʒ/ predomina sobre a forma escrita, inverso portanto ao centro-oeste pernambucano) ocorre. No Nordeste, “busca” se pronuncia [‘buskɐ] e “turismo” [tu’ɾizmu]. Mas “astro” se diz [ˈaʃtru] e “desde” [ˈdejʒd̪i/ˈdejʒd].
  • Uso predominante de oclusivas dentais: Uma característica marcante e curiosa deste dialeto é que assim como certos locais do interior paulista e sulino, esse dialeto também preserva o modo indo-europeu clássico de pronunciar as consoantes “t” e “d” na vogal /i/, que se dá pela pronúncia de oclusivas dentais surdas (/t̪/) e sonoras (/d̪/), ou seja, do modo como é escrito e grafado, ao contrário de dialetos em que não há pronúncia similar ao modo europeu e mesmo estadunidense do “ti” e “di” falados de forma pura e modo original similar ao que ocorria com o proto-indoeuropeu, e, como no português, a vogal “e” final de toda palavra tem sempre som /i/, essa pronúncia de /d/ e /t/ indoeuropeia é preservada também em sílabas finais “de” e “te”. Exemplos: “dia” se diz [ˈd̪iɐ] e “noite” se diz [ˈnojt̪i] (diferente de boa parte do português brasileiro, que realizada africadas pós-alveolares sonoras - /dʒ/ e surdas - /tʃ/ antes do som de /i/).
  • Glotalização do /ʁ/ e substituição por /h/-/ɦ/: Duas características são compartilhadas entre este e os dialetos da costa norte, baiano e recifense: o som da letra “r”, onde a fricativa uvular surda (/ʁ/) é substituída. O som de “r”, portanto, é bem glotal quando forte, podendo ser surda (/h/) ou sonora (/ɦ/) (nunca aspirado como a fricativa velar surda - /x/, usada no Rio de Janeiro e na língua espanhola), e suave quando fraco (vibrante simples alveolar - /ɾ/), sempre em encontros consonantais e nunca no meio ou fim de sílabas como em dialetos do Centro-Oeste, Sul e Sudeste brasileiros, além de não ser pronunciado no final das sílabas. Geralmente a glotal sonora é usada em encontros consonantais, como em “corda” [ˈkɔɦdɐ], e a glotal surda quando inicia palavras ou no dígrafo “rr”, como em “rabo” [ˈhabu] e “barragem” [baˈhaʒẽj].
  • Presença, ou não, de africadas alveolares em sílabas finais: Também são realizadas africadas apenas alveolares surdas e sonoras (/dz/ e /ts/), sempre no fim das sílabas “des”/”dis” e “tes”/”tis”, caracterizadas como uma “palatalização fraca” por diferenciar-se da palatalização ocorrida na maioria dos dialetos brasileiros, pois essa também possui som dental, embora também alveolar (por exemplo: em “partes” [‘paɦts] e “amizades” [ɐmi’zadz]); mas essa regra nunca vale pra essas sílabas em começo de palavras (como em “desmantelo” [d̪ɪzmɐ̃ˈtelu]), nem pra sílabas próximas a sílabas tônicas ou palavras monossilábicas tônicas (como em “diz” [ˈd̪iz] e “tesoura” [t̪ɪˈzowɾɐ]); em alguns casos ocorre substituição de /e/ por /ɪ/.
  • Ditongos crescentes em sílabas pós-tônicas com palatalização facultativa: Dependendo de variações geográficas e de influência de dialetos próximos, em palavras como “prédio” e “pátio”, que possuem ditongos crescentes com “di” e “ti” na sua composição, pode haver a pronúncia de africadas pós-alveolares, mas sem ser uma palatalização completa como na maior parte do português brasileiro, sendo pronunciadas muitas vezes [ˈpɾɛdʒu] e [ˈpatʃu], respectivamente. Ainda em ditongos pós-tônicos, palavras como “família” e “alumínio” com “li” e “ni” na sua composição tem palatalização e comumente são ditas [fɐˈmiʎɐ] e [aluˈmĩɲu].

Vogais

  • Abertura das vogais pré-tônicas: Outra característica marcante deste dialeto (porém, não exclusiva deste) é a abertura das vogais pré-tônicas /e/ e /o/ para /ɛ/ e /ɔ/ (sendo que no dialeto interiorano essa abertura pode variar dependendo da região, havendo o fenômeno da harmonia vocálica apenas na região do subdialeto do Interior Nordestino, e nas demais regiões onde é falado o dialeto, essa abertura varia) Por exemplo, segundo a regra de harmonia vocálica, em todos os subdialetos provavelmente as pessoas pronunciam as palavras “rebolar” e “hospital” como [hɛbɔ’la] e [ɔspi’taw] respectivamente, enquanto que boa parte das pessoas do Sul-Sudeste do país pronunciam geralmente [ʁebo’laɾ] e [ospi’taw]. Mas uma pessoa do interior do Ceará, do Rio Grande do Norte ou da Paraíba, regiões com influência próxima do dialeto da costa norte, pronunciariam a palavra “mesada” como [meˈzadɐ] (por derivar de “mês” [ˈme(j)s], ao passo que em algumas regiões do interior de Alagoas, de Sergipe e da Bahia a mesma palavra seja pronunciada como [mɛˈzadɐ], por influência do dialeto baiano, onde há uma super abertura dessas vogais. Porém, ao contrário do dialeto baiano, e pela mesma regra, este dialeto tende a fechar as vogais quando a sílaba é pós-tônica, assim como em boa parte do Brasil (por exemplo: a palavra “caráter” é pronunciada [kaˈɾate] neste dialeto, enquanto que no dialeto baiano é dita [kaˈɾatɛʁ]).
  • Monotongação de “ei” e “ou” em sílabas tônicas: No geral, o dialeto nordestino realiza muita monotongação em palavras com os ditongos “ei” e “ou” quando estes ocorrem em sílabas tônicas, onde os mesmos são frequentemente reduzidos a /e/~/ɛ/ e /o/-/ɔ/ e antes de vogal “a” e das fricativas /ʒ/ (“j” e “g” antes de “e” ou “i”) e /ʃ/ (“x”), de uma oclusiva bilabial sonora-/b/, de uma vibrante simples alveolar-/ɾ/ e de /v/. O ditongo “ou” também é reduzido no fim das palavras, o que não ocorre com “ei”, este pronunciado normalmente, como na palavra “sei” [‘sej].

Exemplos com “ei”: -“feijão”: [feˈʒɐ̃w] em vez de [fejˈʒɐ̃w] -“ideia”: [iˈdɛ.ɐ] em vez de [iˈdɛj.ɐ] -“beijo”: [ˈbeʒu] em vez de [ˈbejʒu] -“queixo”: [ˈkeʃu] em vez de [ˈkejʃu] -“vaqueiro”: [vaˈkeɾu] em vez de [vaˈkejɾu] Exemplos com “ou”: -“rouba”: [ˈhɔbɐ] em vez de [ˈhɔwbɐ] -“frouxo”: [ˈfɾoʃu] em vez de [ˈfɾowʃu] -“couro”: [ˈkoɾu] em vez de [ˈkowɾu] (pronúncia equivalente à da palavra “coro”) -“houve”: [ˈovi] em vez de [ˈowvi] (pronúncia equivalente à da palavra “ouve”) -“ficou”: [fiˈko] em vez de [fiˈkow]

  • Ditongação de /a/, /e/, /o/ e /u/ em sílabas tônicas que terminam em /s/: De modo similar à característica descrita anteriormente, também há frequente ditongação neste dialeto, quando as vogais /a/, /e/, /o/ e /u/ ocorrem em sílabas tônicas precedidas de /s/ (ainda que /s/ seja grafado como “z”), geralmente de palavras monossilábicas, plurais e adjetivos. Ditongando /a/: “mas” [‘majs] (pronúncia equivalente à da palavra “mais”). Ditongando /e/: “mês” [‘mejs]. Ditongando /o/: “arroz” [a’hojs]. Ditongando /u/: “cuscuz” [kus’kujs].
  • Iotização das consoantes aproximante lateral palatal (/ʎ/) e nasal palatal (/ɲ/), e posterior redução silábica: Em relação ao som de “lh” e “nh”, palavras como “velho” e “manhã” tem esses sons substituídos por /j/, e quando as mesmas terminam com “o” há uma redução silábica ([ˈvɛj] em vez de [ˈvɛʎu] e [mɐ̃ˈjɐ̃] em vez de [mɐ̃ˈɲɐ̃]). Entretanto, é mais comum a iotização (e posterior nasalização) de uma nasal palatal do que mesmo a iotização de uma aproximante lateral palatal, sendo o primeiro fenômeno corriqueiro na fala coloquial, enquanto o último parece muitas vezes associado a comunidades rurais ou a pessoas com baixo índice de escolaridade.
  • Substituição de /e/ por /ɪ/ e /o/ por /ʊ/: Ocorre com frequência nas regiões de agreste e caatinga, onde ocorre o fenômeno de harmonia vocálica, mas também pode ser percebido nas capitais (e suas regiões metropolitanas da zona da mata). Por exemplo, a palavra “botão” é pronunciada como [bʊˈtɐ̃w] em vez de [boˈtɐ̃w], e a palavra “escola” é dita [ɪsˈkɔlɐ] em vez de [esˈkɔlɐ]. Esse fenômeno é compartilhado com outros dialetos compatriotas, especialmente o carioca e os demais dialetos setentrionais.

Gramática

Algumas peculiaridades gramaticais do português falado no Nordeste são: a omissão do artigo definido antes de nome próprio com a função implícita e instintiva de diferenciar objetos, animais e coisas de pessoas e afins, poupando assim artigos que seriam desnecessários e em demasiado “artificialismo” (forçado, algo não-natural e não-espontâneo), de acordo com os falantes dessa variação (p. ex.: “Maria foi à feira” em vez de “A Maria foi à feira”), e a inversão da colocação da partícula negativa (p. ex.: “Sei não” em vez de “Não sei”).

Léxico

O léxico adotado no Nordeste é, em sua maioria, o mesmo usado nas demais regiões do Brasil e em Portugal; contudo, pode haver grandes mudanças semânticas. Alguns exemplos dessas mudanças são palavras como “zunir”, que quer dizer “arremessar”, enquanto em outros lugares do Brasil designa o ruído do vento; ou “prenda”, que no nordeste significa “presente”, enquanto em outras regiões do Brasil significa “grávida” ou “garota”. O “tu”, assim como no Sul do Brasil, é usado frequentemente na região nordeste. Em 2004, o jornalista Fred Navarro lançou o Dicionário do Nordeste, contendo cerca de cinco mil palavras e expressões peculiares à região. Vale ressaltar que apesar dos estados nordestinos terem o seu léxico próprio de palavras e expressões típicas, dependendo dos dialetos de regiões limítrofes, o léxico pode estar associado ao de outros dialetos vizinhos.

Referências

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