Para a posteridade a bela explicação da Natália Viana, da Agência Pública de jornalismo (que esteve envolvida no Cablerun da Wikileaks em 2011, recomendo a leitura da série que está no último capítulo, inclusive) sobre o plano do EB se retomar o poder através da linha democrática (e quem sabe o que vem depois) por pura birra com a Comissão Nacional da Verdade (CNV) instaurada pela presidente Dilma Roussef para apurar os crimes de tortura cometidos no regime civil-militar brasileiro entre 1964 e 1985. Ainda é bom ler que os milicos não gostaram de não serem mais chamados pra remarcação de terras indígenas que o INCRA estava fazendo e, pior de tudo, reclamam abertamente do desfecho disso: ouvir os indígenas no lugar do milicos.


Muito tem se falado sobre as revelações que ex-comandante do Exército fez no livro de Celso Castro sobre o julgamento do habeas corpus do Lula no STF.

Mas o livro “Conversa com o comandante”, da editora @EditoraFGV é muito mais rico do que isso. Eu o li semana passada para finalizar o meu livro Dano Colateral que sai pela @edobjetiva em junho .

Algumas passagens esclarecem o papel do próprio Villas Boas e seu grupo na construção do governo Bolsonaro e na volta dos militares à política.

Por exemplo: o general, que fazia parte do Alto Comando do Exército durante a Comissão Nacional da Verdade, realizada pelo governo Dilma Rousseff, Chama a CNV de uma “facada nas costas” da presidente

O mesmo general, como sabemos, teve alguns encontros com o Vice-presidente Temer antes do Impeachment e avalizou as movimentações pelo acordão que tirou Dilma do governo. Inclusive Temer se reuniu diversas vezes com militares antes do impeachment de Dilma.

Em que pese a CNV, órgão extraordinário ligado diretamente à presidência. ter recomendado um pedido formal das Forças Armadas pelas violações cometidas pela ditadura, Villas Bôas explica que seu grupo decidiu simplesmente não pedir desculpas.

Escreve o general:

Nós estudamos detalhadamente o desenvolvimento dos processos em andamento na Argentina e no Chile. Deles extraímos duas conclusões relevantes . A sequência dos eventos no Brasil estava repetindo o que se cumpriu naqueles países, desde as indenizações até a revisão da lei da Anistia, passando pela Comissão da Verdade. Em um e outro, houve comandantes que apresentaram pedidos de desculpas, no pressuposto de que com essa atitude estariam colocando um ponto final nos processos”. Pelo contrário: esses pedidos foram considerados confissão de culpa, motivando a intensificação dos procedimentos de investigação. Internamente, nos respectivos Exércitos, isso afetou seriamente a autoestima institucional”.

Em outro trecho, ele revela seu dedo na composição do Ministério bolsonarista. Foi Villas Bôas que decidiu que o General Heleno deveria ser ministro-chefe do GSI, cargo anteriormente ocupado pelo seu amigo de infância Sérgio Etchegoyen.

“Presidente, nós não queremos o Heleno da Defesa”, disse o então comandante do Exército ao presidente recém-eleito. “Eu avaliava que seria mais proveitoso ele ocupar um cargo que proporcionasse a convivência diária com o presidente”, detalha.

Villas Bôas ainda ofereceu um nome para a Defesa, o almirante Leal Ferreira – a quem ele mesmo convidou por telefone. Ferreira negou o convite, e então Villas Bôas também atuou na escolha do atual nome, o general Fernando de Azevedo.

Antes do governo Temer, era impensável um militar assumir o Ministério da Defesa, criado justamente para consolidar o controle civil das Forças Armadas. Agora, temos o próprio comandante do Exército fazendo ligações para convidar alguém para o cargo.

Villas Bôas deixou o comando do Exército em 11 de janeiro de 2019, pouco depois de Bolsonaro assumir. Mas, antes disso, fez questão de mexer os pauzinhos para pessoalmente para satisfazer um antigo sonho o ex-capitão: graduar-se na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO).

Eu explico. Bolsonaro estudava na ESAO quando bolou um plano p/ explodir bombas em quarteis do Rio em protesto por aumento de salários. A revista Veja revelou o plano e deu o nome do santo, Bolsonaro, que virou alvo de investigação interna e não conseguiu se formar na ESAO.

Diz Villas Bôas:

“Bolsonaro concluiu o ano letivo, o que constatei quando no comando da ESAO; ele me pediu para verificar o que constava a respeito. Depois de eleito presidente, solicitou eu recebesse o diploma, o que foi feito em uma cerimônia simples”.

Fuçando na internet encontrei um vídeo da cerimônia, realizado dois meses antes da posse. Bolsonaro recebeu o diploma do próprio comandante do Exército e, emocionado, garantiu que não estaria sozinho, mas com mais pessoas, “em grande parte das Forças Armadas”.

Ele promete, diante de Villas Bôas, que pretende realizar uma “a guinada do nosso país ao rumo daquilo que não devia ter saído, naquele período de 20 e poucos anos atrás”. Diz isso sob aplausos e comoção dos oficiais ali presentes.

https://www.youtube.com/watch?v=gksLqPZ5paA

Tem mais uma coisa essencial no livro: Villas Boas explica sua estratégia para que os militares voltassem a ter voz ativa no debate sobre a política nacional. Eis o que ele diz:

“Ao final dos governo militares, e mesmo antes, o Exército empreendeu a ‘volta aso quarteis’, assumindo a postura de ‘O Grande Mudo’. Consequentemente, a sociedade se desacostumou de ouvi-lo no que se relaciona à segurança da sociedade e do Estado”

Especificamente, o comando do Exército reclama de não ter sido consultado sobre a demarcação de Raposa Serra do Sol. Os militares também reclamam do Brasil ter aderido à Convenção 169 da OIT, que garante que indígenas são consultados sobre projetos em suas terras:

“Estabeleci como meta que o Exército voltasse a ser ouvido com naturalidade. Teríamos que romper com o patrulhamento que agia toda vez que um militar se pronunciava, rotulando de imediato para quebra de disciplina ou ameaça de golpe”.

A estratégia foi desenhada por ele e pelo CComSex e incluiu não só a entrada dos generais no Twitter como um sinal verde para os membros do Alto Comando abrirem a boca: “Estimulei os generais de Exército no sentido de serem proativos e ocuparem espaços de comunicação”.

Há muito mais no livro de Villas Bôas, mas para mim esses trechos demonstram que a volta dos generais à política foi bem mais planejada do que pensamos.

Fonte de tudo: https://twitter.com/VianaNatalia/status/1367073348665167872