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Dando continuidade ao textos sobre dinheiro e futebol, semana passada eu passei lendo os posts do Capelo no Globo Esporte, tentando entender como o buraco do PPV do campeonato brasileiro funciona e, mais ainda, como os times da Europa se mantém nessa bolha que parece não ter fim.

Agora, analisando os números da suposta dívida do Barcelona (1 bilhão de euros) percebemos que os clubes da Europa lucram absurdamente mais do que qualquer clube sul-americano. A maioria dos vinte maiores em arrecadação está acima dos clubes do Brasil — inclusive o Flamengo — e da Argentina. Não tem comparação justa nesse cenário. Um ano de arrecadação do Barcelona equivale a 4 anos e meio do Flamengo.

A tabela abaixo é uma tradução e conversa da tabela do site Deloitte, que ranqueia os clubes e suas finanças todo o ano. Olhando a tabela fica fácil enxergar porque as seleções do mundo que jogam nas ligas principais da Europa são tão melhores do que os clubes grandes da América do Sul.

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Analisando as estimativas e razões para um decréscimo de arrecadação neste ano, a Deloitte diz:

Publicada apenas seis meses após o final da temporada 2019/20, a Money League é a análise independente mais recente e confiável quanto ao desempenho financeiro relativo dos clubes.

As principais conclusões desta edição são:

  • Os 20 principais clubes geraram um total de 8,2 bilhões de euros em 2019/20, 12% abaixo da temporada anterior (9,3 bilhões de euros).

Esta diminuição de 1,1 bilhão de euros é explicada por:

  • queda de 937 milhões de euros (23%) nas receitas de transmissão, principalmente devido ao adiamento dessas receitas para o exercício financeiro que termina em 2020 e os descontos das emissoras relacionadas com a temporada 2019/20 interrompida;
  • uma queda de 257 milhões de euros (17%) na receita por rodada, uma vez que as partidas foram primeiro adiadas e depois canceladas ou retomadas sem torcida;
  • essa queda foi compensada por um aumento de 105 milhões de euros (3%) na receita comercial, refletindo o início de vários acordos comerciais importantes entre os clubes da Money League em 2019/20.

Estimamos que os clubes da Money League deste ano deverão ter perdido mais de 2 bilhões de euros em receita até o final da temporada 2020/21, incluindo montantes perdidos em relação a 2019/20, como resultado da pandemia da COVID-19, principalmente devido a:

  • receita dos clubes da Money League estar próxima de zero a partir de março de 2020, sendo improvável que os torcedores possam retornar em números significativos para qualquer uma das temporadas de 2020/21;
  • os descontos de radiodifusão das “cinco grandes” (conhecidas como Big5) ligas e da UEFA totalizam atualmente quase 1,2 bilhões de euros, dos quais uma grande parte é suportada pelos clubes da Money League;
  • potencial perdido para continuar sua trajetória de crescimento anterior ao período em questão.

Resumo, esse ano 20 os clubes das cinco principais ligas arrecadaram 8.2 bilhões de euros (55 bilhões de reais) ao total. O Barcelona corresponde por quase 5 bilhões desses 55. O clube menos valorizado dos 20, sem ganhar nada e fazendo campanhas de meio de tabela pra cima, o Frankfurt, arrecadou mais do que o Flamengo na sua melhor temporada da história — campeão da Libertadores vice campeão do mundo, campeão Carioca e do Brasileirão.

Eu entendo que os jornalistas brasileiros pensem que precisamos renovar o sistema de gestão dos clubes. Eu concordo, chega de amadores como o Pífero e o Medeiros no Inter. Mas, analisando friamente os números que temos, é provável — e possível — dizer que os clubes brasileiros fazem uma campanha boa com o que tem à sua disposição, tanto em material humano como em dinheiro bruto, ainda mais se levarmos em conta que grande parte das promessas das duas maiores da América do Sul saem com ~22 anos em média e por valores muito baixos quando comparados com os valores do mercado interno da UE.

Claro, não vamos mudar isso no curto prazo, quiçá no longo prazo, mas precisamos parar de encarar o esporte apenas como paixão quando se torce e como profissão quando se cobra. Não temos como comparar o mercado europeu, centralizado, colonizador e recheado de máfias comprando times e criando “corporações esportivas” como o Grupo City com o Inter, sediado em Porto Alegre e que arrecada, quando muito, 340 milhões por ano.

Precisamos modernizar o futebol brasileiro o quanto antes, profissionalizar árbitros e melhores a gestão, mas, sem uma proteção contra o assédio europeu, nada poderemos fazer senão continuar sendo periferia esportiva. E o impacto disso nós já sentimos: nunca um sul-americano ficou tanto tempo sem ganhar uma Copa do Mundo.