Eu acho que qualquer pessoa que não more no Brasil teria uma dificuldade imensa em entender como o povo daqui parece funcionar. O Brasil está, com seu governo militar, se tornando o grande problema do mundo. E pior, um problema sério e sanitário. Podemos ser o criadouro de um vírus muito mais mortal e agressivo, que infecta muito mais gente, que burla as atuais vacinas, reinfecta pessoas já curadas e mata os mais jovens de forma mais rápida. E tudo isso porque, lá atrás em 2013 as pessoas acharam que seria uma boa protestar em bandeira de partido e “contra tudo isso que tá aí”.

Contudo, o mais difícil de entender é como um país miserável, onde 48% das pessoas vive com R$413 de renda familiar por mês (menos de 100 dólares) segue em um culto ao empresário que daria medo em um nazista nos anos 30.

Para entender isso, precisamos entender a conjunção de mídia (jornais e TV) com a ideia de liberalismo tropical que se instalou no Brasil. Não tem nenhuma relação com Adam Smith e outros, pelo contrário, esses são considerados “ultrapassados” nas suas ideias. O grande modelo liberal a ser seguido é chileno, do ditador Augusto Pinochet, que rendeu, entre outras barbaridades, o atual sistema de previdência geral do Chile e as manifestações que acossaram o atual presidente em plena pandemia em 2020. A Escola de Chicago, o Reaganismo misturado com o Tatcherismo e uma pitada de conservadorismo evangélico e catolicismo carismático. Um sopa que faria Weber reescrever sua obra máxima para dar conta de como o brasileiro se entoca numa armadilha que os seus pares criam. E é assim desde 1500.

Mas tudo isso tem motivo, claro. A mídia especializada em geral criou um mito de eficiência de gestão em empresas privadas para contrapor com as empresas estatais, mesmo que isso não seja verdade, porque sempre soube que nas estatais, com servidores públicos de carreira e com estabilidade, é que estava o grande foco de resistência ao desmonte do Estado brasileiro, e isso é ruim para as famílias que comandam a mídia do Brasil desde 1800.

Empregados operando em regime PJ, sem direitos e com escalas de 36 horas contínuas. O sonho de todo o escravocrata do século XIX. Problema é que tem essa coisa chamada sindicato no meio que impede, muitas vezes, a escravidão completa no capitalismo. Como não tinha como demitir diretamente o servidor público, a mídia fez o quer sabe mais: mentiu. E o fez deliberadamente, ano após ano, a mídia burguesa encarnou o liberalismo como modelo de progresso último, final. O fim da história humana é o Paulo Guedes. Estadão, O Globo e Folha de São Paulo são exemplos pontuais do que se tem como referência nesse tipo de jornalismo que se fantasia de democrata mas no fundo é apenas um serviçal de quem pagar mais. No caso, dos empresários.

Então começamos a ver matérias por anos a fio derrubando servidores, fomentando reformas liberais e criando factóides ao redor de figuras da esquerda e centro-esquerda. Coberturas de 30 minutos no Jornal Nacional para analisar cada possível desdobramento de uma frase do Lula aliados com um silêncio total em relação aos desmando da Lava-Jato. É assim que se cria a ideia de que o serviço público e todos os que o defendem são farinhas do mesmo saco e devem ser eliminados em prol da concorrência [1] e do livre mercado. E assim se cria o mito de que empresário geram riqueza e empregos.

Todo esse marasmo de ideias acaba desembocando no Brasil de 2016~2021, onde a presidente eleita é deposta num golpe branco para dar lugar a um vice-presidente conspirador e que se vendeu ao liberalismo em troca de uma saída da prisão. A ponte para o futuro do Brasil estava quebrada, dirão. Mas não é verdade. Essa era a ponte. Dólar alto, exportações, agronegócio, inflação, recessão. Isso foi a receita dos anos FHC e é a receita dos anos Temer/Bolsonaro, porque em essência, eles são o mesmo lado de uma moeda. Bolsonaro não sabe falar, não sabe usar talheres e tem um péssimo gosto pessoal, mas Dória, Leite e FHC não seriam diferentes dele. São cepas do mesmo vírus. Uma mais agressiva, a outra mais parasitária.

Auxílio emergencial é endividamento do Estado, não tem como, alguns acham que pode durar a vida toda. Não dá. Lá atrás eram quase R$ 50 bilhões por mês quando era R$ 600. Agora assinamos, assinamos não, fizemos um acordo se não me engano R$ 42 bilhões para mais quatro parcelas de, em média, R$ 250.

Não interessa ao liberal brasileiro que o fator multiplicador do Auxílio Emergencial seja de R$1,78 e que isso tenha impedido um tombo de ~10% no PIB. O que interessa é que essas pessoas, recebendo entre R$1200 e R$150 não se desesperam mais a ponto de aceitar trabalhar de forma intermitente limpando banheiros sem nenhum tipo de EPI. E isso fere o liberal brasileiro, um rico explorador que nunca trabalhou na vida e vive da herança imperial da família. O que interessa é que o pobre não tenha capacidade de escolher o que comer, o que vestir, onde morar e onde trabalhar. Estudar é coisa de rico, pobre trabalha. Se desse eles riscavam o lombo no chicote. Felizmente ainda existe o MPT.

Não se engane, Bolsonaro não é bom; mas Dória seria a mesma coisa; Leite idem; FHC foi isso. O que Bolsonaro acabou tendo a mais do que qualquer um deles é uma pandemia que ele trata como oportunidade de recrudescer o seu núcleo de apoio mais fanático, porque acima de tudo ele sabe que ele precisa de 30% dos votos pra chegar no segundo e ganhar; porque ele também sabe que nenhum tucano liberal vai votar no PT ou na esquerda contra ele. Eles são iguais.