Bolsonaro é um genocida?

Nunca consegui chegar a nenhuma conclusão sobre isso. Bolsonaro não me parece genocida, ele é apenas um liberal e, como todo o liberal, tem problemas com os mais pobres, os trabalhadores. Disso temos o segundo ponto, que pergunta se as pessoas que votaram nele tem culpa e são genocidas como ele supostamente seria. Eu chuto que as pessoas não são “genocidas”. Essa é uma visão da esquerda acadêmica do PSOL, que se baseia numa esquerda importada do partido democrata dos EUA, e que eu acho extremamente contraproducente. Dizer que 40% das pessoas compactuam com o genocídio me soa como um julgamento moral (de superioridade) em relação aos outros.

Explico.

Nesse bolo tem todo o tipo de pessoas, desde as que não se importam mesmo com o que está acontecendo, passando pelas que precisam trabalhar pra não morrer de fome ou morar na rua, chegando até as que não entendem o que está acontecendo porque são bombardeadas com notícias dos dois lados – de um lado a esquerda pequeno burguesa dizendo que são genocidas em potencial e do outro a direita liberal dizendo que tudo é gripezinha e que o grande problema do Brasil é a falta de privatização.

Acredito que a gente, progressistas e de esquerda, deveria focar os esforços, da forma que for possível, em ouvir essas pessoas que estão perdidas e que por mais que saibam que sobre o vírus, entendem que não podem ficar sem trabalhar – ou trabalhar de casa – mesmo sabendo do perigo de sair. É muito bonito dizer que todo mundo precisa ficar em casa – e num mundo ideal, seria isso mesmo – mas a realidade da nossa situação sistêmica capitalista nos coloca na rua pra trabalhar sob pena de morrer.

Ademais, esse discurso de “fique em casa sob qualquer custo” serve em muito para frear uma possível organização de trabalhadores que poderia colocar pressão no governo. Ontem mesmo em Gravataí, cidade onde passei a maior parte da minha vida, a GM anunciou que vai fechar por 3 meses mantendo o salário acordado com o sindicato. Eles já estavam de férias coletivas desde segunda (1/3) e trabalhando em turno reduzido desde abril/2020. Em outros tempos, esse pessoal estaria na rua, hoje, com a desorganização dos setores que deveriam estar pressionando – esquerda – as fábricas fecham, as pessoas perdem os empregos e tudo o que a gente vê são “fios” no Twitter falando de uma realidade paralela da academia.

Criticam muito o PCO pela atitude belicosa do partido e pela ideia fixa da revolução popular, mas pouco se fala da incapacidade do PSOL e do PCB em sair dessa masturbação intelectual que gera dois produtos: livros e cursos (pagos).

Ou seja, pra mim a população brasileira não é genocida, ele está perdida porque é composta de uma massa de trabalhadores precarizados e sem dinheiro (47% da PEA não tem renda fixa).

Disso depreende também entender como as pessoas mais pobres votam. Essas pessoas pobres pensam com o corpo, sempre. Pensar com o corpo significa pensar nas suas necessidades mais básicas (moradia, saúde e alimentação). Na nossa sociedade todas essas três dependem de dinheiro e dinheiro depende de trabalho e trabalho depende de economia rodando. O pensamento é simples: se eu ficar em casa, eu não trabalho e perco dinheiro; sem dinheiro eu não como e não moro; se eu não como e não moro eu e a minha família estamos fodidos.

Como eu disse, 47% da PEA não tem atividade fixa – renda instável ou desempregada – e isso impacta na capacidade de se pensar para além do final do dia. As pessoas não saem às ruas porque são genocidas ou apoiam o Bolsonaro, elas saem de casa porque o aluguel tá vencendo, a conta de luz não deixou de vir e a comida no mercado tá cada vez mais cara.

Nisso entra o desconhecimento sistêmico onde estamos inseridos. Esse sistema que oprime o trabalhador e os joga uns contra os outros é a base para se chegar no apoio do empresário ao Bolsonaro – esse sim, ganhando dinheiro na pandemia e fazendo pressão via sindicato patronal nos governadores e prefeitos – que prefere mortos acumulados do que 10 dias de loja fechada. Só que as pessoas se colocam à favor de quem paga o salário e contra quem quer fechar, claro.

Se tivéssemos um sistema de RBU já implementado isso teria sido dirimido sobremaneira. Não existiria nenhuma discussão sobre isolamento ou fechamento e estaríamos todos com um controle muito maior sobre as nossas vidas e sobre a pandemia.

Disso, ainda, vem o terceiro ponto a se levar em conta, a mídia. Com certeza a mídia tem seu papel central nos problemas da escalada do Bolsonaro ao poder. Principalmente a mídia liberal que está encarnada na Folha, Estadão e Rede Globo. Mas não é apenas isso. Um problema complexo requer uma resposta complexa. Infelizmente, não conheço ninguém que seja, no momento, capaz de dar essa resposta.

Enquanto o Brasil se afunda sem ar numa espiral de loucura e liberalismo, a esquerda segue perdida com o furacão que passou pelos quadros do partido em 2018. O grande embate da esquerda se resume a pedir o impeachment do Bolsonaro e esperar uma manobra errada do atual presidente para sacá-lo do poder. Zero organização de base, zero diálogo com trabalhador, zero capacidade de agir para fora da sua zona de influência. Enquanto os quadros se jogam flores e criam cursos caros, o trabalhador se espreme no ônibus em busca de um salário mínimo.

Acho contraditório pedir o impeachment do Bolsonaro. E mais: acho nocivo ao Brasil. Ele seria deposto por mais um golpe branco, tal qual a Dilma e o Collor. Ainda, mesmo defendendo o impeachment, é bom analisar que o Baleia Rossi, candidato do centrão/Maia, não se elegeu presidente da câmara, perdeu pro aliado de Bolsonaro, inclusive. Podemos entender por esse fato que é bem provável que não existam votos suficientes pra aprovar o pedido de impeachment. Talvez tenhamos um termômetro sobre isso agora, uma vez que o STF encaminhou uma noticia-crime à câmara, se ela for aprovada pela é um bom indicio de que o Bolsonaro está perdendo o apoio da casa.

Mas, voltando ao ponto inicial: eu acredito que nenhum dos dois casos se encaixa em política de genocídio. Genocídio é uma coisa bem especifica, tal qual o fascismo. Ambas palavras entraram no vocabulário das pessoas comuns via esquerda identitária e acabaram perdendo o peso que deveriam e, principalmente, o seu real significado.

Bolsonaro não é um genocida, ele é um político de má índole da velha direita que se aliou à liberais para pôr em prática um plano de desmonte estatal. Ponto.

Isso é claro como a água. Se uma pessoa concorda ou não com o plano, são outros 500. Mas o Bolsonaro é isso. O resto é consequência da incapacidade dele de governar, da desonestidade dele com o povo e, principalmente, da pressão massiva de setores empresarias em cima de governadores e prefeitos.

E a verdade é que não vamos mudar nada disso sem mudar a superestrutura. Esse é o ponto do presidencialismo de coalizão brasileiro. E é assim porque a CF88 pensou no Brasil como um parlamentarismo presidencialista, ou seja, deveríamos ter um PM e um presidente (e é por isso que o presidente da câmara tem tanto poder) agindo como freios e contrapesos desse sistema. Como o povo da época foi refratário à ideia de não escolher diretamente o presidente – chaga da ditadura civil-militar – acabamos tendo um remendo que, entre outras coisas, força qualquer pessoa que ocupe o cargo de presidente a negociar de maneira quase nefasta com os blocos da câmara.

Há ainda a corrupção, a grande cornucópia da direita brasileira. Aquela que nunca termina porque eles mesmos a alimentam. O processo de licitação viciado, a rachadinha. Tudo é a um grande Ouroboros político que é usado de tempos em tempos como arma política contra a esquerda progressista. Existe a ilusão de que sem corrupção o Brasil seria uma Dinamarca. Não é verdade. A corrupção serve para nublar o debate real sobre o estado brasileiro, sobre a sua função e sobre quem ele deveria ajudar de fato.

Corrupção é um assunto externo à política e não mudaria muito caso tivéssemos menos corrupção no Brasil ou se a gestão fosse mais profissional. O problema do Brasil é falta de dinheiro mesmo. Cobramos muito de quem ganha pouco e pouco de quem ganha muito (nossa arrecadação per capita é menor do que países como Portugal e Uruguai, por exemplo).

Corrupção é uma cortina de fumaça que nos jogam de tempos em tempos pra poder tramar outras coisas – como reformas.